Crime a muitas mãos

on .

Maurício Zomignani

A morte por linchamento de Fabiana Maria de Jesus, 33 anos, após divulgação de sua foto no perfil do Facebook Guarujá Alerta é desses crimes realizado a tantas mãos que precisa ser olhado atentamente. A opinião de Luiz Felipe Pondé reproduzida no jornal A Tribuna de Santos afirma que as redes sociais são uma lupa do comportamento humano, o que é interessante, na medida em que a possibilidade do anonimato realmente estimula um exagero nas posturas, que o filósofo chama de linchamento virtual, afirmando que a passagem para o linchamento presencial, então, torna-se óbvia. Ele não abordou o papel dos meios de comunicação tradicionais, mas disso se encarregou Ricardo Boechat âncora do Jornal da Band ao criticar o estímulo à justiça com as próprias mãos feito por jornalistas, como feito semanas antes por Raquel Sheherazade então âncora do Jornal do SBT que defendeu as iniciativas dos que chamou de “vingadores” como “legítima defesa coletiva”.

Na verdade o estimulante para muitas pessoas é uma curiosa e paradoxal mistura de anonimato com notoriedade, com doses diferentes de um ou de outro, conforme o caso. É óbvio que os participantes de linchamentos reais sempre se imaginaram defendidos pelo anonimato da multidão, mas atualmente filmam e deixam-se filmar. É claro que os responsáveis pelo perfil, ao postar a foto de Fabiana e associá-la à suspeita de um crime, estimulando que as pessoas ficassem alertas, expuseram-na ao linchamento digital, propiciando às pessoas que se associam ao perfil uma causa baseada simplesmente em suspeitas que terminou em linchamento real.

Na verdade a postura de linchamento é muito comum em nosso cotidiano. Basta surgir um comentário sobre qualquer crime, e infelizmente não faltam notícias impactantes neste sentido, para brotarem revoltados que, faces duras, olhos esbugalhados, bradam contra a inoperância das autoridades, trabalhando sempre com a presunção de culpa, com base em meras aparências, para preconizar medidas radicais que tais pessoas se declaram prontas a realizar. Foram numerosos os que concordaram com Sheherazade, por exemplo, em nome da “justiça”.

Há muita gente que, sem consciência, anda pelas ruas pronta para reagir. Por todo lado há barris explosivos ambulantes, cabendo a nós percebermos tanto se não estamos nessa condição, quanto se não estamos entre aqueles que os enchem de pólvora, ou que incitam sua explosão seja nas redes, nas ruas, nos meios de comunicação, em quaisquer conversas, nas quais essas opiniões sempre se destacam.

O Delegado do caso, Luiz Ricardo Lara Dias Junior, afirmou que um primeiro preso agiu “movido pela população que clamava por justiça”. Quem deve ser responsabilizado pelo assassinato, então?

Trata-se de um crime a muitas mãos cuja responsabilidade criminal está sendo apurada. Quanto à responsabilidade moral, no entanto, será difícil encontrar alguém que não seja barril, pólvora, ou gatilho, e que não possa ser chamado por esses fatos a repensar sua postura e passar a estimular a racionalidade, o direito de defesa e a paz nos diversos ambientes que frequenta.

O autor é assistente social e membro do Fórum da Cidadania de Santos. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.