Era uma vez dois amigos ...

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 ( Homenagem a Alberto Remédio Fº e Mário Amato)

 Esta história começa no século passado, numa pequena cidade chamada Vinhedo... Lá viviam meus tios, primos, amigos de meus primos. Em frente à matriz, havia uma praça. Mais abaixo, a estação ferroviária, bem movimentada. As fábricas que se instalavam geravam empregos pra muita gente.  

Neste cenário bucólico e, ao mesmo tempo, com características das novas cidades que surgiram nos arredores de São Paulo e Campinas, viviam dois rapazes dos quais eu não me esqueço – Alberto Remédio Filho, meu primo, e Mário Amato, amigo dele. 

Mário estudava Sociologia e praticava autenticamente as idéias que assimilava, no período difícil em que ter responsabilidade social era risco de perseguição política. Ainda não se falava em Cultura de Paz, mas ele já a vivenciava e ensinava promovendo a justiça social, solidariedade e participação democrática. Sua coragem e autenticidade foram para mim lições de vida. Lembro-me de sua primeira campanha para vereador, dos livros que líamos, dos ideais e esperanças dos jovens avançados daquele tempo. 

Alberto, em outro ritmo, com seu jeito comedido, na sustentável leveza do ser, mergulhou nas águas da Educação e fez a diferença. Conduzia seus alunos pelos labirintos da matemática e das descobertas juvenis. Como a matemática é para muitos uma bruxa assustadora, Alberto inventou os “ Matemágicos” para quebrar o estigma traumatizante  dessa disciplina curricular.

Eu era fã de carteirinha do mágico-professor, com sua mala de apetrechos, usados nas apresentações. Certa vez, eu lhe dei outra mala para substituir a antiga, que pedia aposentadoria. E ele ficou tão agradecido, por tão pouca coisa... 

Meus amigos não eram perfeitos; tinham as fragilidades de seres humanos, mas eram Seres Humanos especiais, pacíficos...

O tempo foi passando e os dois amigos remando no mar da vida cotidiana. Mas, nem sempre, o mar está calmo. Não estamos imunes às tempestades que surgem sem avisar. Novos desafios aconteciam de tempos em tempos.  Coisas boas que alegravam, revezes revestidos de tristezas... E a vida tocando em frente... porque a evolução não pára e não volta atrás... 

Primeiro foi Mário que adoeceu. Lembro-me de quanto Alberto ficou abatido com a doença do amigo.  Lentamente, Mário foi caminhando pela linha do arco-íris até chegar além do horizonte.  Depois, foi a vez de Alberto fazer o mesmo caminho, lentamente, mas ficando com o espírito  cada vez mais burilado. 

Hoje, os dois amigos estão em novo ciclo de vida, com novas oportunidades de evolução, mas sempre presentes em nossa lembrança. Lembranças boas, bons sentimentos que nos ligam e nos convencem de que a morte pode desfazer a matéria física, mas as consciências transcendem e permanecem conectadas pelos laços que tecemos pelo tempo a fora.

                                                                         Sílvia Costa / Guaxupaz                                                    

( Alberto Remédio Filho partiu do mundo físico em 26 /07/2015)