Lucidez no meio do caos

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Leonardo Sakamoto 22/10/2014 

Questionei, algum tempo atrás, um punhado de meus alunos de jornalismo se não achavam estranho o fato de não haver nenhuma pessoa negra na turma. Um deles, sincero, respondeu que não tinha percebido isso porque nunca estudou com uma.

Depois, em reservado, ele me explicou que morava em um desses grandes condomínios, tipo alphabolha, afastados da realidade crua de São Paulo e que oferecem tudo o que a pessoa precisa – menos o contato com a diversidade.

Cresceu sem estudar com negros e negras no ensino fundamental e médio. E, entrando em uma universidade cara, a chance seria menor ainda. Nesse ponto, o programa de bolsas e de financiamento estudantil do governo federal ajudaram – e muito – para que alguns cursos da PUC-SP não fossem tão monocromáticos.

Uma pessoa que vive em uma bolha, a menos que conte com família, amigos e uma escola que deixem claro que nem tudo se resume a ele mesmo, pode se assustar quando percebe que o mundo não foi feito à sua imagem e semelhança.

Isso acontece nas redes sociais, onde o algoritmo faz com que você receba atualizações de perfis e páginas com que você interaja mais. Ou seja, na maior parte das vezes, de quem é seu amigo, pensa como você, tem os mesmos gostos, enfim.

Não é novidade, e muitos já escreveram sobre isso, que algumas redes sociais, por garantirem que chegue a você aquilo que se encaixa no seu perfil e na sua forma de interação com a sociedade, limita bastante a sua visão de mundo. Lembre-se que aquilo do qual gostamos não bate necessariamente com o que precisamos.

(Um salve para quem amava agrião e chicória desde pequeno e não teve que aprender a consumir.)

O mundo não concorda sempre com a gente, ao contrário do que parece nas redes sociais. Aliás, o mundo não tem uma única opinião, tem várias.

Daí, quando um amigo próximo compartilha uma página que traz uma opinião diferente, rola um frio na espinha. “Que ideia idiota! Esse cara só pode ser burro e picareta ou estar ganhando um por fora!'' Não aceitamos a diferença porque não fomos ensinados a entender que ela existe e a conviver com ela.

Deve ser desesperador para alguém que vive imerso em uma bolha, física ou virtual, quando tem que ir à rua e ver pessoas diferentes, pensando diferente, agindo diferente.

Aquele bando de gente falando coisas que vão na direção contrária do que aprendeu durante toda a vida.

Que ouviu da família.

Que escutou na igreja.

Que sentiu na escola.

Que leu em veículos de comunicação.

E, sem querer entender o argumento do outro, vocifera: “Você está errado!''

E se o outro continuar a falar ou escrever, tal qual um zunido irritante e insistente, a pessoa, entrando em parafuso, fritando na batatinha, quase que instintivamente solta um “Cale-se!''

Fundamentado na certeza formada pelo calor aconchegante da bolha, ela vai lá e ameaça o outro. Às vezes, até o silencia fisicamente. Em sua cabeça, não está fazendo nada de errado, apenas protegendo a sociedade de quem quer desestabiliza-la e, ao mesmo tempo, reestabelecendo a ordem natural das coisas.

Com já disse aqui uma miríade de vezes, a internet possibilitou o acesso ao mundo. O problema é que não estávamos preparados para um mundo que não fosse necessariamente a nossa cara. Vivemos uma “adolescência'' da rede – aprendemos para que servem os órgãos genitais e agora estamos usando-os loucamente, como se não houvesse amanhã e como se ninguém se machucasse no meio do caminho.

Como se resolve isso? Com a tranquilidade que não está sendo vista nestas eleições, em qualquer um dos lados que se estabeleceu.

E a receita é bem simples: se o gosto pela diferença não está no seu paladar, pelo menos inclua pitadas de tolerância.

O problema é que esse tempero não se compra ou empresta. Nós mesmos é que temos que produzi-lo ao longo do tempo na base de reflexão e autocrítica.

Pena que autocrítica também ande tão em falta no mercado.

blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2014/10/22/eleicoes-voce-ja-pensou-em-ver-o-mundo-alem-da-sua-bolha/

 

Crime a muitas mãos

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Maurício Zomignani

A morte por linchamento de Fabiana Maria de Jesus, 33 anos, após divulgação de sua foto no perfil do Facebook Guarujá Alerta é desses crimes realizado a tantas mãos que precisa ser olhado atentamente. A opinião de Luiz Felipe Pondé reproduzida no jornal A Tribuna de Santos afirma que as redes sociais são uma lupa do comportamento humano, o que é interessante, na medida em que a possibilidade do anonimato realmente estimula um exagero nas posturas, que o filósofo chama de linchamento virtual, afirmando que a passagem para o linchamento presencial, então, torna-se óbvia. Ele não abordou o papel dos meios de comunicação tradicionais, mas disso se encarregou Ricardo Boechat âncora do Jornal da Band ao criticar o estímulo à justiça com as próprias mãos feito por jornalistas, como feito semanas antes por Raquel Sheherazade então âncora do Jornal do SBT que defendeu as iniciativas dos que chamou de “vingadores” como “legítima defesa coletiva”.

Na verdade o estimulante para muitas pessoas é uma curiosa e paradoxal mistura de anonimato com notoriedade, com doses diferentes de um ou de outro, conforme o caso. É óbvio que os participantes de linchamentos reais sempre se imaginaram defendidos pelo anonimato da multidão, mas atualmente filmam e deixam-se filmar. É claro que os responsáveis pelo perfil, ao postar a foto de Fabiana e associá-la à suspeita de um crime, estimulando que as pessoas ficassem alertas, expuseram-na ao linchamento digital, propiciando às pessoas que se associam ao perfil uma causa baseada simplesmente em suspeitas que terminou em linchamento real.

Na verdade a postura de linchamento é muito comum em nosso cotidiano. Basta surgir um comentário sobre qualquer crime, e infelizmente não faltam notícias impactantes neste sentido, para brotarem revoltados que, faces duras, olhos esbugalhados, bradam contra a inoperância das autoridades, trabalhando sempre com a presunção de culpa, com base em meras aparências, para preconizar medidas radicais que tais pessoas se declaram prontas a realizar. Foram numerosos os que concordaram com Sheherazade, por exemplo, em nome da “justiça”.

Há muita gente que, sem consciência, anda pelas ruas pronta para reagir. Por todo lado há barris explosivos ambulantes, cabendo a nós percebermos tanto se não estamos nessa condição, quanto se não estamos entre aqueles que os enchem de pólvora, ou que incitam sua explosão seja nas redes, nas ruas, nos meios de comunicação, em quaisquer conversas, nas quais essas opiniões sempre se destacam.

O Delegado do caso, Luiz Ricardo Lara Dias Junior, afirmou que um primeiro preso agiu “movido pela população que clamava por justiça”. Quem deve ser responsabilizado pelo assassinato, então?

Trata-se de um crime a muitas mãos cuja responsabilidade criminal está sendo apurada. Quanto à responsabilidade moral, no entanto, será difícil encontrar alguém que não seja barril, pólvora, ou gatilho, e que não possa ser chamado por esses fatos a repensar sua postura e passar a estimular a racionalidade, o direito de defesa e a paz nos diversos ambientes que frequenta.

O autor é assistente social e membro do Fórum da Cidadania de Santos. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

Redes Sociais: Liberdade de Expressão ou Abuso?

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Patrícia Peck Pinheiro

Os brasileiros são campeões em solicitação de retirada de conteúdo do ar na internet e redes sociais. Por que será?

Acredito que somos um povo de opiniões fortes, mais jocoso, acostumado ao fato de que tudo vira pizza e de que formamos um país onde impera a impunidade. Todos estes fatores reunidos permitiram criar um perfil de usuário de “moral mais frouxa”.

A liberdade de expressão precisa ser não apenas exercida, mas ensinada nas escolas. Como se expressar de forma ética e juridicamente correta? Como manifestar sua opinião, seu direito de protesto, sua reclamação de consumidor sem que isso se transforme em um abuso de direito. O limite entre liberdade e prática de crime é bem sutil. E faz toda a diferença a escolha do texto, qual palavra será publicada para expor no mundo, em tempo real, um pensamento.

Precisamos, então, de inclusão digital com educação. Em um contexto de maior acesso a tecnologia com serviços que viabilizam compartilhar informações, produzir conhecimento colaborativo, deve-se saber também quais são as regras do jogo, que vão desde a proteção da reputação e imagem das pessoas até dar o crédito ao autor.

Acredito que a grande maioria das pessoas não reflete muito sobre o que está comentando, publicando, ou melhor, documentando, nas redes sociais. E, infelizmente, é difícil exercer arrependimento, pois o conteúdo se espalha rapidamente, e se perpetua!

A maioria dos casos de solicitação de retirada de conteúdo do ar envolve, principalmente: a) uso não autorizado de imagem; b) ofensa digital; c) exposição de intimidade excessiva (em especial no tocante a menores de idade); d) uso não autorizado de marca; e) uso não autorizado de conteúdo (em geral infringindo direitos autorais).

E então, eis uma questão relevante, como orientar os jovens, que estão na rede social, na grande maioria mentindo a idade? O problema da ética já começa aí. Os serviços destacam a responsabilidade dos pais darem assistência aos seus filhos nos ambientes digitais. Um pai leva um filho ao cinema, mas não sabe o que ele está fazendo na “rua digital”.

A tecnologia não tem um mau intrínseco. Talvez, este nosso Brasil que está digital seja, de fato, mais transparente. Isso significa que somos assim mesmo, gostamos de nos exibir, de falar mal dos outros, fazer piadas de mau gosto, publicar fotos das pessoas sem autorização. Será? Ou a geração Y nacional é que não foi bem orientada, que não conhece as leis, que acha que não vai haver consequências de seus atos?

Temos que preparar melhor nosso novo cidadão da era digital, para gerar a própria sustentabilidade do crescimento econômico do país em um cenário de mundo plano, sem fronteiras. Para tanto, é essencial garantir a segurança das relações, a proteção dos indivíduos. Toda desavença social digital que possa virar uma ação de indenização, que acione a máquina da Justiça, gera prejuízos para toda a sociedade e não só para as partes envolvidas.

Devemos investir em duas políticas públicas digitais: a de educação e a de segurança. No tocante à primeira, deve-se inserir no conteúdo base da grade curricular do ensino fundamental e médio, das escolas públicas e particulares brasileiras, os temas de ética e cidadania digital, que devem tratar sobre: a) proteção da identidade (contra falsa identidade e anonimato); b) exercício da liberdade de expressão com responsabilidade (contra os abusos); c) uso correto de imagens; d) produção e uso de conteúdos digitais dentro das melhores práticas de direitos autorais (coibir plágio e pirataria).

Os jovens precisam aprender como fazer o dever de casa sem copiar o conteúdo alheio!

Quanto à questão da segurança, deve-se por certo criar um time responsável pela vigilância das “vias públicas digitais”, para identificação rápida de incidentes e para aumentar a prevenção. Se o cidadão está na internet, então o poder público e o poder de polícia têm que estar também. Com ambientes preparados, com alta disponibilidade e com medidas que garantam a proteção dos dados dos brasileiros.

O país ficou mais justo através da infovia, onde seus artistas passam a ter alcance mundial. Inclusive, uma pessoa qualquer pode ficar famosa em questão de segundos e, com isso, realizar um futuro sonhado antes restrito a poucos. A mobilidade trouxe mais emprego, mais negócios, e já alcança também as classes C e D. Permitiu, também, a redução de tarifas e custos, seja pelo uso do Banco pelo celular ou mesmo do acesso aos serviços públicos na internet, mais rápidos, eficientes e com menos burocracia.

A conta ecológica também agradece, pois o uso da Tecnologia da Informação e Comunicações - TIC permite reduzir o uso do papel. Bem como o ativismo ambiental também cresceu nas redes sociais chegando até a se financiar através de doações que ocorrem no modelo comunitário-coletivo do “crowd funding” (financiamento colaborativo). Mesmo a relação do eleitor-candidato ficou direta de fato! E esta memória coletiva, que fica residindo nas redes sociais mesmo após o pleito, é importantíssima para o amadurecimento das escolhas e do próprio exercício do voto. Isso é um ganho!

Claro que o grande investimento em infra-estrutura dos últimos anos foi o que viabilizou um Brasil mais democrático, que permite acesso a informação através de uma internet banda larga. Sem isso, por certo não teríamos incidentes, nem pedidos de retirada de conteúdos do ar. Mas, não podemos gerar analfabetos digitais. Não é só saber dar “click”, tem que ser educado e praticar o uso ético e seguro.

De todo modo, o mais importante não é ficar pedindo para tirar conteúdo do ar depois que o estrago já está feito, mas saber publicá-lo dentro de um modelo mais avançado de cidadania e respeito. Precisamos deixar de herança a vontade de criar e inovar. O uso do ferramental tecnológico tem que ser utilizado a serviço do bem social.

Patrícia Peck Pinheiro é autora do livro Direito Digital e, em parceria com a Dra.Cristina Sleiman, do audiobook “Tudo o que você precisa ouvir sobre Direito Digital”.

http://portalcallcenter.consumidormoderno.uol.com.br/seu-espaco/colunistas/patricia-peck/redes-sociais-liberdade-de-expressao-ou-abuso

 

Responsabilidade Civil e o Dano Moral nas Redes Sociais

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Olivan Bello

Entenda como funciona a responsabilidade civil (dano moral) nas redes sociais. Nossa preciosa doutrina jurídica diz que: “A responsabilidade civil é a aplicação de medidas que obriguem uma pessoa a reparar dano moral ou patrimonial causado a terceiros, em razão de ato por ela mesma praticado, por pessoa por quem ela responde, por alguma coisa a ela pertencente ou simples imposição legal.”

O acesso facilitado à internet fez crescer o uso das redes sociais. É de fácil constatação o seu uso frequente, principalmente por meio de aparelhos móveis. Quase que na mesma proporção de crescimento da internet, aumentaram intrigas, mentiras e fuxicos, só que, agora, virtuais, entre usuários das redes.

Antes da informática, sobretudo da internet e das redes sociais, assuntos de menor importância, como os acima citados, eram difundidos de forma verbal, era a conhecida e famosa fofoca – que, a depender do contexto e extensão, caracteriza-se como injúria e difamação.

Muitos utilizavam a internet para proferir ataques à honra e reputação das pessoas, principalmente, no uso privado das conversas, o conhecido “in box”. Muitos se utilizam dessa ferramenta para desferir um senão de inverdades, criar intrigas, levantar falsas situações, enfim uma verdadeira panaceia de ofensas (fofocas) que, em quase todos os casos, partem de pessoas com duvidoso equilíbrio, seja mental, seja moral.

A lei protege a vítima de injúria e difamação, podendo o ofensor ser punido criminal e civilmente. O Código Civil Brasileiro assevera que aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano, inclusive moral, a alguém terá a obrigação de indenizá-lo.

A Constituição Federal garante a todos o direito à livre manifestação de pensamento, sem qualquer restrição, sendo, portanto, vedado o anonimato. A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas são invioláveis, mediante o disposto no Art. 5º da Carta Magna, inciso X, assegurando ainda o direito ao ressarcimento pelos danos causados.

Geralmente, o ofensor age à surdina, nos porões. Difama de forma quase que secreta, nunca o faz em público, pois, além de poltrão, é dissimulado. Mesmo dessa forma, o ofensor pratica atos de ataque à honra a um universo de pessoas conhecidas, ou seja, do convívio social do ofendido. Essas pessoas, geralmente, irão relatar as ocorrências ao ofendido. É da natureza humana se indignar em relação a ofensas injustas, principalmente quando se referem a pessoas de notória conduta proba e honesta.

Na maioria das vezes, o ofensor tenta desmoralizar o ofendido às pessoas próximas. Tenta incutir na mente delas inverdades e suas ilações sobre o ofendido, sempre de forma a desmoralizá-lo. O azar do ofensor é que, por se tratar de pessoas próximas, logo o ofendido toma conhecimento dos fatos.

Dessa maneira, basta que o ofendido tome posse dos textos “in box” que noticiam as difamações, assim, poderá utilizá-los como prova em demanda judicial. Para afastar qualquer dúvida sobre a autenticidade, pode-se solicitar a um tabelião de cartório uma ata notarial eletrônica, ou seja, um instrumento público pelo qual o tabelião autentica em forma narrativa os fatos, relatando que o documento representa a verdade.

De posse dessa documentação, o ofendido deve contratar um advogado de sua confiança para propor a medida judicial adequada, requerendo a responsabilidade do ofensor para que este responda criminal e civilmente pelos seus atos.

Olivan Bello, Servidor do MPGO, Bel. em Direito pela Unievangélica, colaborador da Folha de Jaraguá.

http://www.folhadejaragua.com/index.php/cotidiano/2011-opiniao-responsabilidade-civil-e-o-dano-moral-nas-redes-sociais


Saiba mais sobre Enfrentamento aos Crimes e Violações aos Direitos Humanos na Internet acessando: www.safernet.org.br

 

Os “rolezinhos”: movimento e afirmação

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Renato Tadeu Veroneze

Renato Tadeu Veroneze (*)

Desde as jornadas de junho de 2013, jovens tem encontrado formas cada vez mais criativas e interessantes para se manifestarem. Os chamados “rolezinhos”, uma prática que tem colocado em movimento uma gama de jovens nos espaços privados, em especial os shopping centers da cidade de São Paulo, tem sido uma ação interessante e que nos deixa muitas interrogações. 

 

Vivenciei esta experiência estes dias. Estava em São Paulo e fui com duas amigas ao Shopping Bourbon assistir o filme Robocop, um filme que vale a pena conferir. Logo que chegamos ao primeiro piso, nos deparamos com uma multidão de jovens adolescentes que se agrupavam para o tão falado “rolezinho”. De certo modo, acabamos ficando alheios a estes simples fatos ou, até mesmo, tecemos comentários desfavoráveis e preconceituosos, porém, esta ação está cheia de significados.

Os jovens estavam ali simplesmente para reivindicar um espaço que lhes foi tirado: a rua. Passivamente se agruparam e saíram caminhando pelo shopping, “dando um rolezinho”. Não queriam comprar nada ou roubar, quebrar, saquear, vandalizar ou qualquer ação que possa merecer uma vigilância acentuada. Mas, pelo fato de estarem reunidos num grande grupo, despertava medo e insegurança naqueles que ali estavam. Bem, isto era o que a segurança do shopping pensava, pois os frequentadores não deram a menor importância, alguns até acharam interessante àquela visita “estranha e inesperada”.

O interessante é que todos os vigilantes do shopping ficaram em alerta, seguindo o grupo onde quer que este fosse, como se estivessem ali para fazer alguma contravenção. Quando interpelados, os vigilantes logo se justificaram: “são ordens de cima”.

“Sair para dar um rolê...” é uma expressão de linguagem juvenil que significa dar uma circulada despretensiosa em algum lugar. É possível dar um “rolê” pela cidade, pelo bairro, pelo parque, de ônibus, a pé, de bicicleta, enfim, o “rolê” está ligado a algum tipo de lazer ou a alguma prática cultural.

Este modismo começou a chamar a atenção de muita gente nos dias atuais. Um simples gesto de sair e circular de forma livre tem ocupado papel central nas principais manchetes e comentários em todos os veículos de comunicação.
Em Guaxupé, esta prática é conhecida dos jovens enamorados de outrora que davam voltas nos “bambolês da Avenida”, que hoje já não são tão redondos assim..., em busca de uma paquera. Hoje, os tempos são outros...

O direito de dar um “rolê” é uma das principais reivindicações daqueles movimentos históricos que tomaram as ruas do Brasil em 2013. O caos que tem tomado os grandes centros é um fato preocupante. As ruas estão ficando intransitáveis.

Para nós, guaxupeanos, as ruas e os espaços públicos sempre foram um espaço por excelência de sociabilidade, de lazer e de convivência, apesar de que hoje as coisas andam mudando, principalmente quando encontramos dificuldade em andar livremente pelos passeios por serem tomados pelas mesas dos bares que não respeitam a lei.

Nas cidades grandes, com o passar dos tempos, as ruas foram se tornando um lugar perigoso e violento. Hoje, as políticas culturais tendem a “tirar os jovens das ruas” e a confina-los em ambientes fechados. Com a chegada dos shoppings centers, concentrou-se num único lugar todos os espaços de lazer e, logicamente, os de compras.

Ainda, o mais tinhoso descaramento não poderia ser demonstrado nas instituições de ensino superior que estão instaladas e espalhadas pelo Brasil em shopping centers, comprovando vergonhosamente, que a educação se tornou um “artigo de vitrine”.

As pessoas vão ao shopping para dar um passeio livre, solto, em busca de alguma coisa, pessoa, fazer compras, para o lazer, alimentação, ou tudo isso junto, ou mesmo para não fazer nada. Porém, esta circulação tem cor, etnia, classe social, moda, comportamentos bem determinados. Muitas vezes este passeio não pode ser livre e nem espontâneo. Os pobres, por exemplo, até podem circular pelo shopping, contanto que finjam pertencer à outra classe social. Mesmo que estejam sem recursos, devem de alguma forma, gastar alguma coisa, porém a receptividade nas lojas é bem diferente... De outro modo, os negros podem circular pelo shopping tranquilamente, mas devem fingir ser brancos nas vestimentas, nos cabelos, no comportamento etc., conforme aponta o antropólogo Renato S. Almeida.

Os “rolezinhos” tem um significado social: já que estes jovens não podem mais frequentar as ruas livremente, por causa do perigo, da violência, da falta de espaço, das batidas policiais etc., buscam ressignificar os espaços sociais, de modo a se afirmarem como são, sem precisar fingir ser outra coisa, como é a realidade dos shoppings onde, muitas vezes, somos obrigados a ser quem não somos. Até parece que gostamos de viver de mentiras...

O “rolezinho” é um movimento de afirmação de identidade da periferia. O feio, o pobre, o sujo, o colorido, enfim, o diferente, deve ficar escondido, afastado, isolado, “não deve contaminar a sociedade” e, quando estes sujeitos sociais resolvem aparecer, deve-se ficar em estado de alerta. Interessante como as coisas se apresentam, não é?

Quando estes jovens resolvem fazer um simples “rolezinho”, como tanto outros jovens que nasceram em “berço esplendido” fazem livremente, logo a polícia ou a vigilância entra em ação: o inferno do preconceito e da discriminação se afirma em forma de coerção e violência.

Ao contrário do que muitos pensam sobre esta mobilização como uma prática da “geração shopping centers”, ou seja, da “geração consumista”, estes jovens querem mostrar que este espaço é de todos, é um espaço que tomou as ruas, os parques, as praças..., que os desapropriou.

De certo modo estes simples “rolezinhos” escondem uma prática cultural, uma prática que põe em xeque os valores que estamos criando e incorporando ao nosso viver. Vale a penas pensar...

(*) O autor é Assistente Social