A mensagem do Dalai Lama sobre os atentados em Paris

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Poucas horas tinham passado desde os atentados em Paris e uma das maiores hashtags em circulação nas redes sociais era #PrayforParis.

Todavia (e talvez para espanto de muitos), o Dalai Lama afirmou, numa entrevista ao canal de televisão alemão Deutsche Welle, que os homens não podem estar à espera que Deus resolva os problemas criados pelos próprios seres humanos.
“As pessoas querem viver as suas vidas em paz. Os terroristas têm visão curta, e esta é uma das razões pela qual tem havido vários atentados suicidas. Não podemos resolver estes problemas apenas através de orações. Eu sou budista e acredito na oração. Mas os seres humanos criaram este problema, e agora estamos a pedir a Deus que o resolva. Não tem lógica. Deus dir-nos-ia 'resolve-o tu porque foste que o criaste'", pode ler-se.

O líder espiritual tibetano, galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 1989, afirmou que é necessário insistir na promoção de valores humanos, como união e harmonia. “Se começarmos a fazer isto agora, há esperança que este século seja melhor que o anterior”, adiantou o Dalai Lama, que destacou ainda o facto de o século XX ter sido extremamente violento, com cerca de 200 milhões de pessoas que morreram na sequência de guerras e outros conflitos.

“Trabalhemos pela paz no seio das nossas famílias e sociedades, e não esperemos a ajuda de Deus, Buda ou dos governos".

Ainda assim, o líder espiritual defende que são poucas as pessoas que recorrem à violência. "Nós somos seres humanos e não há razão para matarmos outras pessoas. Se olharmos para os outros como irmãos e irmãs e respeitarmos os seus direitos, então não há espaço para a violência. Além disso, os problemas que enfrentamos hoje em dia são os resultados das diferenças superficiais relativamente a religiões e nacionalidades. Nós somos um povo”.

Fonte:
http://www.sol.pt/noticia/480919/a-mensagem-inesperada-do-dalai-lama-sobre-os-atentados-em-paris


Entrevista de Dalai Lama à Deutsche Welle (DW)

'Nossos problemas vão aumentar se não posicionarmos princípios morais à frente do dinheiro", disse o líder espiritual

Após os ataques terroristas em Paris, o líder espiritual tibetano disse à DW que não se pode esperar que Deus resolva os problemas criados pelos homens, e pede mais atenção a valores humanistas do que ao dinheiro.

 

DW: Como você avalia os ataques terroristas em Paris?

Dalai Lama: O século 20 foi violento, mais de 200 milhões de pessoas morreram devido a guerras e outros conflitos. Vemos agora o sangue derramado no século passado transbordar para este. Se dermos mais ênfase à não violência e à harmonia, poderemos proclamar um recomeço. A menos que façamos sérios esforços para alcançar a paz, continuaremos a ver uma reprodução do caos que a humanidade vivenciou no século 20.

As pessoas querem levar uma vida pacífica. Mas os terroristas têm vista curta, e esta é uma das causas dos desenfreados atentados suicidas. Não podemos resolver esse problema apenas através de orações. Eu sou budista e acredito na oração. Mas foram os seres humanos que criaram esse problema, e agora estamos pedindo a Deus para resolvê-lo. É ilógico. Deus diria: resolvam-no sozinhos porque vocês mesmos o criaram.
Precisamos de uma abordagem sistemática para fomentar valores humanistas, que promovam unidade e harmonia. Se começarmos agora, há esperança de que este século possa ser diferente do anterior. É do interesse de todos. Por isso, vamos trabalhar pela paz em nossas famílias e na sociedade, em vez de esperar pela ajuda de Deus, de Buda ou de governos.

Sua mensagem principal sempre foi de paz, compaixão e tolerância religiosa, mas o mundo parece estar indo na direção oposta. A sua mensagem não ressoou nas pessoas?

Eu discordo. Acho que apenas uma pequena porcentagem das pessoas adotaram o discurso da violência. Nós somos seres humanos, e não há base ou justificativa para matar outras pessoas. Se você considera os demais como irmãos e irmãs, e respeita seus direitos, não resta espaço para a violência.

Além disso, os problemas que estamos enfrentando hoje são resultado de diferenças superficiais entre crenças religiosas e nacionalidades. Somos um só povo.
Vemos líderes políticos obcecados com o crescimento econômico, mas que não se importam com a moralidade. Você se preocupa com essa tendência?

Nossos problemas vão aumentar se não posicionarmos princípios morais à frente do dinheiro. A moralidade é importante para todos, inclusive para religiosos e políticos.
Você diz que a abordagem do "caminho do meio" ("middle way") é a melhor maneira de resolver a questão tibetana. Você acha que sua estratégia acabará sendo bem sucedida?

Eu acredito que seja o melhor caminho. Muitos dos meus amigos, incluindo líderes indianos, americanos e europeus, acreditam que seja o caminho mais realista. No Tibete, ativistas políticos, intelectuais e estudantes chineses apóiam a nossa política do "caminho do meio".

Quando encontro estudantes chineses, digo-lhes que não estamos buscando a independência da China. Eles entendem a nossa abordagem e sentem-se próximos da nossa causa. Não é apenas no caso do Tibete; vivemos no século 21, e todos os conflitos devem ser resolvidos pelo diálogo, e não pela força.

Quem vai sucedê-lo como Dalai Lama?

Eu não estou preocupado com isso. Em 2011, anunciei oficialmente que seria uma escolha dos tibetanos manter ou não a instituição do Dalai Lama. Se as pessoas acharem que essa instituição deixou de ser relevante, ela deve ser abolida. Eu não estou mais envolvido em questões políticas, estou apenas preocupado com o bem-estar do Tibete.

A Índia está passando por um aumento da intolerância religiosa. O que pensa sobre isso?

Não é a imagem real da Índia. Apenas alguns indivíduos estão causando esse problema. As eleições no estado de Bihar provam que a maioria dos hindus acredita na harmonia e na coexistência.

Deutsche Welle

 Para ler a entrevista na integra, consulte o site : 

http://noticias.terra.com.br/dalai-lama-sobre-paris-nao-esperem-ajuda-de-deus-ou-de-governos,8cce20421e13a176c01b619c0d2d783byvp