Brígida Fries fala sobre mídia construtiva

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Brígida Fries é uma das coordenadoras, no Brasil, do Movimento Imagens e Vozes de Esperança – IVE. Promove diálogos, capacitações e parcerias. Atua no movimento desde sua criação no Brasil, em 1999.

Na entrevista concedida ao Movimento de Cultura de Paz – Guaxupaz ela esclarece alguns aspectos da Mídia Construtiva.

1- O que constitui o gênero de mídia emergente?
Muitos jornalistas ao redor do mundo têm se perguntado sobre o verdadeiro papel da mídia. Eles resistem em aceitar que a mídia é a simples transmissão de fatos ao público. Eles sabem que a mídia pode ser menos sensacionalista e mais equilibrada. Eles não acham que é só violência que vende. Eles acreditam que a mídia pode ter uma função muito mais transformadora: a de ser uma agente de benefício do mundo. Eles são a mídia emergente, que reúne várias denominações como: mídia positiva, mídia de soluções, mídia apreciativa, mídia construtiva, mídia consciente.

2- Quais as características da "mídia construtiva" e os principais desdobramentos ?
Uma coisa é mostrar uma cidade destruída por um terremoto. Outra coisa é mostrar uma criança estudando em meio aos destroços. A primeira imagem mostra o impacto da destruição, passando a sensação de que tudo acabou e ponto. A segunda mostra que a vida continua e que há possibilidade de futuro. Quando damos demasiada atenção para o que está ruindo, perdemos energia e a vontade de agir. Deixamos de ver os incontáveis atos de coragem e bondade que estão transformando problemas em soluções. Quando o profissional de mídia consegue ver além da notícia factual e consegue sentir o lado humano dos personagens, ele começa a se fazer mais perguntas antes de soltar sua notícia: É apreciativa? Tem equilíbrio? Dá experiência? Motiva? Inspira? Constrói? Mostra coerência? Faz aflorar a autoestima? Sinaliza soluções? Dá possibilidades?

3- Há quanto tempo o programa Imagens e Vozes de Esperança - IVE acontece e quais os resultados já evidenciados?
O IVE chegou ao Brasil praticamente junto com os Estados Unidos, em 1999. Desde então já foram realizados 35 diálogos e encontros presenciais em 13 cidades, alcançando um público direto de aproximadamente 3400 pessoas (produtores de mídia, artistas, educadores, comunicadores, designers, estudantes, etc). O que percebemos como organizadores é que, após os diálogos, muitas pessoas passam a ver seu trabalho a partir de novos ângulos. Outras, que já vem para os diálogos com essa nova visão dizem: “eu não sabia que tantas pessoas pensavam e sentiam o que eu penso, é bom saber que não estou sozinho”. Fortalecidos pelos diálogos e inspirados pelo grupo, vários profissionais do IVE criam programas alternativos alinhados com os princípios do movimento dentro dos veículos onde trabalham. Outros partem para novas experiências profissionais onde possam ter mais liberdade, criando suas próprias empresas de comunicação responsável. E há aqueles que relatam ter adotado a investigação apreciativa, motor do IVE, como filosofia de vida.

4- Como acontece o IVE no Brasil? Está se difundindo?
O IVE no Brasil acontece através de diálogos apreciativos de abrangência local ou nacional. Os profissionais são convidados a participar desses diálogos (um dia ou um fim-de-semana) onde são inspirados a promover alguma mudança em suas agendas (exterior) e atitudes (interior). Além das conversas, os eventos do IVE proporcionam a experiência do silêncio interior - através de reflexões e meditações - e também espaço para atividades e performances artísticas.
O grupo central do IVE - formado por cinco profissionais das cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Recife - articula as ações com os membros da rede e alinha com a instituição promotora do IVE no Brasil, a Brahma Kumaris. Recentemente, através do diálogo “Construindo uma Mídia Consciente” realizado em Olinda, o IVE aportou no Nordeste, iniciando uma nova comunidade do IVE lá, além das já existentes no Rio, São Paulo e BH.

5 - Como se processa a tecnologia da análise apreciativa?
A Investigação Apreciativa é uma metodologia para promover mudanças nas organizações (uma escola, uma empresa, um grupo de interesse etc.) através de uma abordagem positiva. Nos “diálogos apreciativos” um roteiro de perguntas positivas é preparado antecipadamente, os participantes se entrevistam em duplas e os pontos altos das entrevistas são compartilhados com os demais participantes. Ao fazer emergir o melhor de cada um, a sabedoria coletiva é revelada, criando-se, assim, uma abertura para novas possibilidades e uma plataforma consistente para mudanças. Foi criada por David Cooperrider e Diana Whitney, da Case Western University, e percorre quatro passos: descoberta, sonho, desenho e destino.

6 -E a narrativa restauradora, no que se difere?
Em recente encontro do Imagens e Vozes de Esperança no estado de Nova York, os participantes – a maioria jornalistas – identificaram alguns atributos da narrativa restauradora:
- é autêntica, não encobre desafios e perguntas importantes;
- leva a resultados positivos;
- tem propósito e intenção;
- não se limita a transmitir fatos, mas ajuda a transformar a situação;
- é voltada para o futuro, presta especial atenção ao que virá depois, busca resolução;
- considera o efeito da narrativa sobre a audiência;
- desperta um sentimento de conexão humana;
- é sensível para a comunidade;
- procura por causas profundas.

Eles também definiram o que não é uma narrativa restauradora:
- excessivamente feliz e ilusória;
- com foco exclusivo no negativo;
- que leva a audiência ao desespero.

7-Há outras tecnologias utilizadas pela mídia construtiva?
Sim, outra ferramenta de diálogo utilizada pelo IVE é o The World Café, criado para
orientar as pessoas a serem anfitriãs de conversas sobre temas que elas consideram importantes. Desde o surgimento, em 1995 no grupo intitulado Intelectual Capital Pioneers, tem sido utilizado em diversas conversações ao redor do mundo colaborando para transformar redes sociais de ambientes corporativos, governamentais e comunitários. É ancorado em sete princípios: definir um contexto, criar um ambiente hospitaleiro, explorar as questões que importam, valorizar as contribuições, conectar as diversas perspectivas, escutar a todos atentamente, compartilhar as descobertas.

8- Como contestar o mito de que matérias de violência vendem mais?
Segundo Oriana White, psicóloga e doutora em comunicação, o que vende é o impacto. Como é mais fácil impactar a audiência com cenas violentas, essa tem sido a forma mais utilizada pelos meios de comunicação. Porém, se o comunicador conseguir criar impacto sem precisar expor a audiência a tanta violência, vai vender. Esse é o desafio do IVE, inspirar a criação dessas mensagens.
Hoje em dia muitos telespectadores, leitores e ouvintes estão deixando de ler jornais e assistir noticiários da TV porque não suportam mais ver tanta violência. Percebemos aí uma perda da audiência que pode ser reconquistada através de uma mídia mais consciente.

9- Os cursos de comunicação/jornalismo estão receptivos a incorporarem estes novos conhecimentos?
Sim. No Rio de Janeiro, a PUC e a UniverCidade ficaram muito interessados na abordagem do IVE. A PUC inclusive pensou em criar uma matéria eletiva cujas aulas fossem ministradas pelos próprios profissionais do IVE. Mas como o IVE é uma rede, não havia infraestrutura para isso naquele momento. Como alternativa à matéria eletiva, surgiu outra proposta que foi a de desenvolver uma Nova Teoria da Comunicação pautada no IVE. O professor Muniz Sodré foi convidado para dar suporte a esses estudos. Posteriormente, Ana Lúcia de Castro, coordenadora da Brahma Kumaris, e André Trigueiro, jornalista e editor da Globonews, foram convidados a dar aula na PUC-Rio. André aceitou o convite e criou o curso de Jornalismo Ambiental. Outro exemplo de profissional que faz a conexão do IVE com a academia é a Nádia Rebouças, especialista em comunicação e ex-professora de planejamento de marketing e comunicação da PUC e FGV. Ela viaja pelo Brasil todo para conferências, palestras e seminários em Universidades, disseminando a filosofia do IVE junto aos estudantes.