Repensando a noção de paz

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Marcelo Rezende Guimarães

Na ânsia de concretizar um projeto de paz, a humanidade corre o risco de idealizar ou romantizar a paz, podendo fazer do pacifismo um campo muito propício para discursos fáceis e emocionais, ou mesmo um modismo. Daí a importância de superar o conceito de paz como ausência de guerra ou perturbação, evoluindo para uma noção mais positiva, associada às experiências humanas, tais como justiça, igualdade, direitos humanos e democracia.

A concepção da paz apenas como ausência de guerra pode esconder a justificação da violação dos direitos humanos, da pobreza e da miséria, uma vez que a violência não se exerce unicamente através da agressão física direta ou dos armamentos, mas também através de outras formas menos perceptíveis, mas não menos perversas.
Em vez de considerá-la como algo para o amanhã, uma espécie de ideal nunca alcançado, podemos pensar na noção de paz como uma agenda de ação, superando certa associação do termo com passividade, tranqüilidade ou mesmo inércia.(...) A paz é um processo no qual nos engajamos, participamos e construímos.

Embora os meios de comunicação exponham as diversas faces da violência, o fato é que estamos vivendo um período de muito interesse e empenho na luta pela paz Em todos os cantos do mundo, protagonizadas por pequenos grupos ou grandes instituições, multiplicam-se iniciativas (...) Os que lutam contra toda forma de armamentismo: o movimento pela abolição de armas nucleares,, a campanha contra as minas terrestres,, a rede contra as armas leves, a coalização pelo fim das crianças soldados, os esforços pela eliminação das armas químicas e biológicas, as campanhas pelo desarmamento, enfim, os que insistem em se contrapor ao poderio da indústria bélica e desejam acabar com o escândalo de gastarmos 25 mil dólares por segundo em armas.
Não esqueçamos os educadores que nas escolas, ou fora delas, são protagonistas nos esforços de educação para a paz, a campanha mundial para incluir a educação para a paz no currículo escolar, a campanha contra os brinquedos de guerra e a capacitação de jovens para resolver os conflitos de forma não-violenta. (...) Finalmente, a infinidade de movimentos por justiça existentes: pelos direitos humanos, em defesa do meio- ambiente, pela igualdade dos direitos da mulher, pelos direitos das crianças, pelos direitos dos povos indígenas, contra toda forma de discriminação, por um tribunal internacional etc.

Assim a paz é vista como um processo em ação e um grande movimento em curso. (...) É um movimento de libertação protagonizado pelas mulheres, as minorias étnicas, os grupos que sofreram violações dos direitos humanos, a classe trabalhadora e os pobres de todo mundo, que tende a envolver mais pessoas, confrontando as estruturas de violência com as estruturas de paz. As mudanças virão com a profunda consciência da real possibilidade de resolver conflitos de forma não-violenta.

O Ocidente, no processo de construção do conceito de paz, foi descartando o seu aspecto social e político. Alguns usos populares da palavra paz, como na expressão  deixe-me em paz, sugerem significados muito próximos do isolamento. No entanto, pax( latim) vem de  pangere que significa comprometer-se e concluir um pacto, estabelecer um acordo entre duas ou mais partes. O acento é colocado numa compreensão mais coletiva e comunitária, articulando-se a partir do horizonte do pacifismo, isto é do engajamento em um movimento organizado, articulado e estruturado em prol da paz. Falar em movimento é evocar pessoas em ação, contatos pessoais e grupais.

O conceito de agressividade, desde Freud, vem sendo entendido como força vital de cada pessoa, necessária para superar obstáculos e limitações próprias do cotidiano. É a agressividade e não a violência que está inscrita na natureza humana, sendo ela necessária para a vida e a aprendizagem. Desta forma, podemos estabelecer uma diferença entre agressividade e agressão, distinção esta frequentemente esquecida no senso comum e nos meios de comunicação social. Agressividade, portanto, não se opõe à paz; pelo contrário, é necessária como expressão da vontade de potência para construir a paz. Nesse sentido, o  oposto da agressividade  seria a passividade, a resignação, o conformismo.
 
 Outro elemento é a compreensão do papel dos conflitos nos relacionamentos humanos, superando a concepção de conflito como algo ruim. O conflito deixa de ser encarado como o oposto da paz ou sinônimo de intolerância ou desentendimento: a questão é como se resolvem os conflitos, se por meios violentos ou não-violentos.Assim, para construir uma cultura de paz faz-se importante aprender a resolver os conflitos de modo não violento, isto é, por meio de acordos e não de modo hostil.

Os nossos conceitos de paz precisam levar em consideração a importante contribuição dos povos indígenas e negros na construção de uma cultura de paz. Eles cultivam a valorização da vida das pessoas e dão importância à relação dos seres humanos com o mundo natural.Nessas culturas, a paz inclui a relação com as forças da natureza, com outros animais e com os espíritos dos antepassados.

Texto reduzido, extraído da obra : Aprender a educar para a Paz. Marcelo Rezende Guimarães, Goiás: Editora Rede da Paz, 2006, p. 34